Eu venho achando meio estranho que as insurreições populares em cascata que vem ocorrendo no norte da África vem sendo pouco comentadas e analisadas pelos especialistas em teoria da comunicação e redes sociais. Não sei se estão esperando que os fatos se desenrolem até o momento de amadurecerem para então poderem ser impressos nos livros escolares. Até o momento eu também não me sentia confortável para dissertar sobre o tema por conhecer pouco a respeito.
Isso mudou depois que assisti ontem ao vivo à histórica apresentação de Wadah Khanfar, diretor geral da rede de televisão árabe Al Jazeera, no TED 2011.
O fato é que a história está sendo escrita neste momento lá fora. E é inegável o papel da internet e das redes sociais neste processo. Esse processo revolucionário foi potencializado graças ao poder da web em viabilizar alguns fatores preponderantes, como por exemplo:
• O compartilhamento epidêmico de conhecimento e dos valores universais.
• A socialização viral dos sentimentos populares.
• A ampliação da compreensão do cenário global.
• A maior influência dos hábitos ociedental e do pensar democrático nos jovens.
Khanfar é tão clarividente em seu pronunciamento que vale registrar aqui algumas passagens para refletirmos com mais propriedade sobre os recentes acontecimentos.
“Eu estou aqui para lhes dizer que o futuro com o qual nós vínhamos sonhando está de fato vivo. Vocês, a geração atual, de fato educada, conectada, inspirada pelos valores universais compartilhados e com uma compreensão global, criou essa nova realidade com a qual havíamos sonhado quando jovens. Encontramos hoje novos caminhos para expressar nossos sentimentos, nossos sonhos. Essa gente jovem, que recuperou a auto-confiança das nações daquela parte do mundo, que nos trouxe um novo significado sobre o que é ‘liberdade’. Jovens que nos encorajaram a caminharmos para fora de nossas casas, descermos para as ruas sem violência, elevar o nosso poder de voz e dizer: ‘nós queremos ver o fim do regime’”.
Uma das passagens mais emocionantes da apresentação é quando Khadaf conta sobre o telefonema de um jovem civil que estava em plena Tahrir Square no Egito em meio ao maior e mais importante protesto da Revolução Egípcia – que ficou conhecido como a “Marcha dos Milhões”. O jovem implorou ao telefone para que ele não desligasse as câmeras naquela noite pois senão haveria um genocídio sem precedentes. O egípcio afirmou ainda que Khanfar estava protegendo o povo ao mostrar o que estava acontecendo em sua rede global. Khanfar então ligou sua equipe de correspondentes e encorajou-os a fazerem o “seu melhor”. Apelou para que eles, em hipótese alguma, desligassem as câmeras naquela noite pois aquelas pessoas sentiam-se confiantes e protegidos por alguém estar contando a sua história.
Khanfar lembrou ainda que a TV Al Jazeera foi banida da Tunísia pelo ditador Ben Ali e há muitos anos os repórteres da emissora não eram autorizados a entrarem no país. Porém, ele afirma que a emissora descobriu que cada um desses jovens revolucionários que foram às ruas poderiam atuar como verdadeiros repórteres correspondentes in-loco. “Nós nos tornamos um centro de compartilhamento que recebe todo esse valioso material (fotos, vídeos, informações) das pessoas comuns. Pessoas que estão conectadas, pessoas com ambição, que libertaram-se do sentimento de inferioridade. E tomamos essa decisão de sermos o circulador de informações. Nós seremos a amplificação dessas vozes, vamos espalhar essas mensagens”.
Estamos falando de um exemplo clarividente que comprova o poder da mobilização social amplificado pelo potencial epidêmico das redes sociais. Um fato histórico sem precendentes que confirma que há de fato uma revolução acontecendo na forma como esta nova geração se relaciona com os meios de comunicação, com as marcas, com o meio social e até com os governos. Uma geração que está utilizando o poder das redes sociais para, entre outras coisas, iniciar um processo revolucionário que culmina na queda de ditadores que há décadas reprimiam suas nações. Uma geração que está impondo uma insurreição democrática viabilizada pela tecnologia e que varreu o mundo árabe no momento em que as pessoas se organizaram e perceberam que poderiam simplesmente ganhar as ruas para exigir mudanças. Uma geração que não concorda mais com o monopólio da fala e reivindica o seu poder de voz. Não é a toa que a primeira medida de todos esses ditadores foi a tentativa de cortar a internet em todo o país.
Khanfar finaliza sua histórica apresentação no TED com uma mensagem inspiracional contundente: “o futuro chegou. O futuro é agora. Testemunhamos uma mudança histórica, a chegada de uma nova era. Este é um momento para celebrarmos nos conectando com aquelas pessoas nas ruas e expressando nosso apoio para elas, expressando esse tipo de sentimento universal de dar suporte aos fracos e necessitados, criando um futuro muito melhor para todos nós”.
E você, o que você acha disso tudo? Raise your voice and bring us your opinion.
ps.1: a ironia fica por conta da marca “apoiadora” do TED de Khanfar. Simplesmente a montadora Lincoln, da Ford. É irônico vermos uma palestra do diretor geral da Al Jazeera, dissertando sobre as revoluções em regiões onde os EUA historicamente apoiaram ditaduras que fossem coniventes com a manutenção do fornecimento de petróleo, sendo patrocinada justamente por uma montadora americada. Enfim, irônico, não? :)
ps.2: em meio a pesquisa para escrever esse post, encontrei uma breve entrevista de Khanfar onde podemos constatar que o cara não está apenas pegando carona nos recentes acontecimentos. Já em 2007, ele afirma que as novas mídias possuem um papel relevante em acelerar as causas democráticas e viabilizar a liberdade de expressão.
ps.3: outra prova disso é uma entrevista que Khanfar cedeu à revista TIME em 2006 onde afirmou que o papel do novo jornalismo é “repensar as autoridades e dar voz aos sem-voz”.


Caro Raul
Belo registro!
Após leitura do seu post, congelo em frente ao monitor e em poucos segundos tento assimilar tamanha revolução cultural. Muitas questões
Khadaf parece ser muito mais do que um executivo de comunicação.
Você resumiu muito bem o papel da web em casos como esse, pontuando quatro fatores preponderantes que antes não seriam possíveis.
grande abraço
Rodolfo
Olá, Rodolfo. Muito obrigado pelo feedback! É muito legal ter contato com esse retorno. O cara realmente me parece muito maior do que um simples executivo de comunicação (mesmo a Al Jazeera já sendo hoje um grande conglomerado de mídia global). O resumo que descrevi em 4 tópicos é todo inspirado nas palavras dele. O crédito é todo dele! :) Obrigado e volte sempre ao PULSO!
Caro Raul,
Algo extraordinário está acontecendo no mundo! Está aflorando finalmente a liberdade dentro das almas das pessoas. Sabemos que o maior e melhor reflexo de uma imagem vem do interior delas. Incontestável agora, reconhecer as mídias sociais como ferramentas para que haja expressão de pensamentos e sentimentos, assim começa materializar-se a liberdade propagada e desejada durante séculos em nossa história. Brindamos enfim, o início de uma nova era: ” a liberdade de expressão” graças aos veículos de comunicação universal!
abraços,
Dulciara C.S.