Arquivo da Categoria ‘Criação’


Viver dá trabalho.
Bruno Villas Boas
21 de julho de 2010

Sempre converso com amigos sobre a vida corrida que levamos. São briefs, pedidos, clientes, projetos, sites, artigos, revistas, jornais, cursos, livros, blogs, um mundo de coisas que nos joga para um ciclo interminável de busca/pressão. Como a proposta do Pulso é unir disciplinas e visões distintas sobre assuntos do nosso dia-a-dia, resolvi convidar uma psicóloga para falar do tema. Vivian Costa Barros é Psicóloga Clínica e Hospitalar, com Especialização em Teoria e Clínica Psicanalítica e Especialização em Psicologia Oncológica-INCA.

Um ótimo texto que ajuda no entendimento das pessoas que são objeto do nosso trabalho (os famosos Clientes e consumidores). Sente nesse divã virtual e tire suas próprias conclusões. Boa leitura!

                                        

(…)Vivemos as nossas vidas, fazemos seja o que for que fazemos e depois dormimos: é tão simples e tão normal como isso. Alguns atiram-se de janelas, ou afogam-se, ou tomam comprimidos; um número maior morre por acidente, e a maioria, a imensa maioria é lentamente devorada por alguma doença ou, com muita sorte, pelo próprio tempo. Há apenas uma consolação: uma hora aqui ou ali em que as nossas vidas parecem, contra todas as probabilidades e expectativas, abrir-se de repente e dar-nos tudo quanto jamais imaginávamos, embora todos, exceto as crianças (e talvez até elas), saibamos que a estas horas se seguirão inevitavelmente outras, muito mais negras e mais difíceis. Mesmo assim, adoramos a cidade, a manhã, mesmo assim desejamos, acima de tudo, mais.

Michael Cunningham, in “As Horas”

 

A relação entre a necessidade e demanda produz uma defasagem onde nasce o desejo. Uma busca interminável para preencher uma falta que insiste em se fazer presente. Afinal de contas, que falta é essa? Freud no seu texto Mal-Estar na Civilização aponta que a cultura pode ser destruidora. Ela valoriza alguns padrões, comportamentos, com os quais muitas vezes somos capturados. Podemos observar como exemplo muito comum nos dias de hoje, o uso excessivo de medicações na tentativa de “uma certa cura” de estados de angústia que, muitas vezes, poderiam ser repensados e ressignificados sem o uso de tais medicações. A medicação está a serviço do patológico. Estamos na era da patologização que também está a serviço de algo que é valorizado pela cultura. Essa cultura é massacrante, e pode promover verdadeiros genocídios nas nossas relações.

Afogados e encharcados por todas essas exigências em que somos convocados, entramos em contato com nossos vazios e impossibilidades que se tornam insustentáveis. Confrontamo-nos com nossos sentimentos mais profundos e doídos, que são reverberados internamente e sentidos numa espécie de terror sem nome. Confusos e impotentes entregamos para o “o outro” o poder de alguém que possa nos ajudar, onde não mais nos reconhecemos, nem “Como fazer?” “E o que fazer?”

Melanie Klein- Percussora da escola inglesa de Psicanálise com ideias emancipadoras de Freud- aponta em sua obra que as pessoas não sofrem apenas de carências, repressões e traumas. Há um sofrimento pela falta de experiências emocionais que propiciem um desenvolvimento/crescimento. Podemos então abrir a questão: Até que ponto nos deixamos paralisar frente às exigências da cultura e deixamos de pensar no nosso papel enquanto sujeito de nossas experiências? O desejo vai estar sempre tentando dar conta da falta. E essa falta vai sempre existir, na medida em que são produzidas mais exigências na vida. A frustração é inevitável. Paralisar?

(Continua…)

 


Categoria
Criação - Digital
Agora olhe para o Twitter do OldSpice. Agora leia o meu post.
Rogério Martins
14 de julho de 2010

“As marcas precisam participar da conversa.”

“A comunicação agora é um-a-um.”

“Voltamos a era do boca-a-boca.”

Este blablablá (hat tip: Fátima Rendeiro) sobre comunicação na era das redes sociais a gente ouve todo dia. Falar é fácil. Fazer, nem tanto. Os malucos da Wieden + Kennedy – Portland resolveram bancar o desafio e fazer exatamente isso. E, assim, criaram a — o que, exatamente? ação? — mais bacana que eu já vi em redes sociais nos últimos tempos.

Ontem (dia 13 de julho – na verdade, ainda está rolando), a galera de lá pegou o garoto propaganda do sabonete líquido Old Spice (aquele, da campanha que foi Grand Prix de filme em Cannes este ano) e botou o moço para responder com vídeos, uma a uma, perguntas e comentários que apareceram em blogs, twits, reddit.com, Facebook etc sobre os comerciais. Os links eram postados no perfil  do Twitter da marca. Confira, por exemplo, sua resposta para um comentário da atriz Alyssa Milano no Twitter.

Imagem de Amostra do You Tube

O mais impressionante é que eles abriram a possibilidade para que os internautas fizessem perguntas que foram respondidas praticamente em tempo real. Uma demonstração não só de brilho criativo como de agilidade que, acho que todo mundo aqui vai concordar, não é lá muito fácil de botar de pé. Imagina só se fossem seguidos os processos habituais de aprovação de cada texto, de qual pergunta seria respondida de um cliente grande. Definitivamente, não é para qualquer um.

Pois é. Quem poderia imaginar que ao levar o bullshite ao pé da letra, você consegue ter um resultado tão impressionante?

P.S.: Este post só foi possível porque vi essa ação via @DanLobo83


Overdose de informação causa bitolação?
Leonardo Brossa
04 de julho de 2010

Outro dia compartilhei dois curtas, que acho super bacanas. Muita gente gostou, mas uma coisa me surpreendeu. 4 amigos meus, que trabalham com propaganda, falaram que esses curtas dariam ótimos filmes de campanha. Que bastava assinar com uma cartela e estava feito o filme, que estava pronto o viral.

Como dois desses caras iam tomar um chope comigo no meio da semana resolvi levar o tema pro bar e bater um papo com eles. Um dos pontos altos da discussão foi sobre uma mudança que eu já vi e até me incluí.

Com essa quantidade de informação estúpida que nos obrigamos a consumir para estar “updated” (o que aconteceu com o “atualizado”), muitas vezes estamos passando a planejar menos a marca e estamos começando a pensar a partir da tática. Querendo levar o pacote completo. Além disso, talvez conseqüência, tudo pra gente passa a ser propaganda.

Não tenho dúvida que isso faz mal pra todos nós, pessoalmente. Pois acabamos ficando meio bitolados. Monotemáticos. Mas também acho que é ruim profissionalmente. Todo mundo quer usar a última moda. Tudo que é bom pode virar propaganda.

Mas como separar as coisas?

Bom, o primeiro passo é relaxar. Curtir sem obrigação de usar. Só por curtir mesmo. E você, o que acha?

Então, comece dando uma olhada nesse curta que eu acho sensacional e tem uma descrição que exercita nossa bitolação: “Every day: so many opportunities to connect… What if you took just one?”


Criação, Critérios e o Lado Negro da Força
Rogério Martins
08 de junho de 2010

darth-vader-face1

A máscara do Darth Vader está errada. E não digo errada como usar parsec como uma unidade de tempo e não de distância. Pelo menos se você levar em consideração apenas o o Episódio IV, o primeiro (hein?) da série Guerra nas Estrelas– ou seja, se o filme Uma Nova Esperança não tivesse sido um sucesso estrondoso e as sequências não vissem a luz do dia — a máscara de Darth Vader está errada do ponto de vista conceitual.

O visual mezzo-nazista mezzo-samurai nasceu da cabeça do artista Ralph McQuarrie a partir do segundo rascunho do roteiro de George Lucas. Nele, havia uma cena em que o malvadão pulava de um destróier imperial para a nave da princesa Leia através do espaço sideral. Para respirar no vácuo, era necessário algum tipo de equipamento: aquela máscara.

Nada a ver com  as queimaduras  decorrentes da épica luta entre ele e Obi-Wan Kenobi em Mustafar. Muito menos com os vapores vulcânicos inalados nesse planeta. Originalmente, a máscara de Darth Vader era um banal capacete de astronauta.

E, no entanto, a máscara de Darth Vader funciona. Mete medo. Não deixa a menor dúvida de que por trás dela está alguém mau, muito mau.

George Lucas teve a genialidade de reconhecer a eficácia desta criação. E acabou fazendo 3 dos 6 filmes de sua saga espacial para explicar sua origem . Em A Ameaça Fantasma, o Ataque dos Clones e a Vingança dos Sith acompanhamos Anakin Skywalker, desde a infância até a colocação da máscara, que marca sua ida para o lado negro da Força. Aliás, segundo Lucas, Guerra nas Estrelas é a história de Anakin Skywalker.  Toda uma narrativa construída em função da arte da máscara. Que foi criada para uma cena que sequer vingou no roteiro definitivo.

Me parece que nós, nas agências, temos um bocado a aprender com George Lucas. Quantas vezes descartamos uma idéia por ela não estar correta, segundo a estratégia, ou alguma consideração execucional, ou sei lá que outro critério?  Não deveríamos nos preocupar mais com o fato de ela, a idéia, funcionar ou não? Não deveríamos, por sinal, reconhecer que a marca das idéias verdadeiramente brilhantes e inovadoras é que elas redefinem critérios?

Lucas percebeu que, mais importante do que tentar encaixar uma idéia em formas prévias, é redesenhar essas formas em função de idéias que pode até não ser absolutamente correta — mas que funcionam. São idéias que produzem o efeito buscado. Até porque, no final,  isso é o que importa. Seja num filme de 2 horas. Ou num comercial de 30 segundos.


O Powerpoint emburrece
Rogério Martins
24 de maio de 2010

Você acha que o PowerPoint mata a criatividade? Pois tem quem ache que o PowerPoint mata. Mata mesmo. Pessoas. Seus nomes: H. R. McMaster e Edward Tufte.

O primeiro é professor de ciência política, ciência da computação e estatística, e design gráfico, em Yale. Ele acusa o programa de apresentações da Microsoft pela explosão do ônibus espacial Columbia. O segundo é um general americano que lutou no Iraque.

O general proibiu a utilização de apresentações de PowerPoint durante seu comando no Iraque. Em uma entrevista para o New York Times, o militar americano disse que o PowerPoint “é perigoso porque cria a ilusão de entendimento e a ilusão de controle. Não dá para colocar certos problemas em bullets.” Na mesma matéria outro general complementa: “PowerPoint nos emburrece.”
Não ria, isso daí é um slide real de uma apresentação do exército americano.

Já Edward Tufte culpa este slide aí embaixo pela morte de 7 pessoas no desastre do Columbia no dia 1o. de fevereiro de 2003. Ele, o slide, estava em uma apresentação feita um mês antes por gerentes sêniors da Nasa que investigavam o risco representado pelo dano ao isolamento térmico por detritos que haviam se soltado durante a decolagem.

O que importa está lá, no último e solitário bullet.
O problema: a informação crucial está escondida no último bullet da tela. Uma frase que diz que o tal detrito era centenas de vezes maior do que qualquer coisa já testada.

Tufte vai além. Na linha dos militares americanos, ele critica o estilo de pensamento que nasce do PowerPoint. Com seus bullets, templates e fluxo linear, o PowerPoint empobrece a maneira pela qual as informações são apresentadas. E acaba empobrecendo também o raciocínio, que precisa se encaixar nesta fôrma, bem como a tomada de decisões.

E você aí achando que o pior que este programa vazia era encher seu saco em sala de reunião.


Mídia Para Atendimentos e Muito Mais
Kátia Viola
12 de outubro de 2009

Começa este mês o curso Fundamentos Para Atendimento, promovido pelo GAP. As aulas acontecem em três sábados (17,24 e 31/10).

Um dos módulos fica a cargo do Grupo de Mídia, representado por Amália Machado e Fernanda Abreu. Elas vão falar sobre o que o Atendimento precisa saber para contribuir na elaboração do melhor plano (incluindo Marplan, IPOBE e outras pesquisas).

A programação do curso inclui também outras disciplinas fundamentais para que o Atendimento possa ser colaborativo, parceiro, criativo e facilitador do processo de comunicação: planejamento, criação, RTV, produção gráfica e até legislação.

Im-per-dí-vel.


Quando a principal idéia não é a criativa
Leonardo Brossa
26 de setembro de 2009

Quem trabalha com publicidade sabe e tem a humildade de admitir que a estrela de qualquer campanha é a criação. Eu, como pseudo-planejador, sei que boa parte do meu trabalho é dar subsídios para a criação arrebentar. Vou confessar,  gosto disso pra cacete. Juro, quando jogo bola gosto mais de fazer o lançamento perfeito do que marcar o gol.

Mas algumas vezes você aprofunda no “problema” e percebe que a campanha é necessária, mas a estratégia vai ser mais importante que qualquer coisa. As vezes a necessidade de estar no lugar certo é mais importante do que a forma como a gente vai conversar.

Se quero rejuvenescer uma marca que tem uma imagem super antiquada, por exemplo, não dá pra sair tirando onda de modernão e fazer uma campanha mega ultra super bem transada. Essa mudança na comunicação deve ser gradual, pra não ficar com cara de “tiozão”. Estar no ambiente desse jovem é um bom início.

Mas como a gente convence o cliente disso? Sabendo que ele está esperando aquela campanha super criativa.

Eu já consegui me dar bem algumas vezes, simplesmente não levando criação. Em outras, ficou aquele clima de “e aí, cade as peças criativas?”.

Atirem suas pedras e comments.